22 de julho de 2014

Tema da Semana Nacional de Trânsito do ano de 2014.



O Contran (Conselho Nacional de Trânsito) aprovou o tema da Semana Nacional de Trânsito do ano de 2014: “Década Mundial de Ações para a Segurança do Trânsito – 2011/2020: Cidade para as pessoas: Proteção e Prioridade ao Pedestre”.

Prevista na Lei 9.503, de 23 de setembro de 1997 – Código de Trânsito Brasileiro, a Semana Nacional de Trânsito, a Semana Nacional é comemorada entre os dias 18 e 25 de setembro, com a finalidade de conscientizar a sociedade, com vistas à internalização de valores que contribuam para a criação de um ambiente favorável ao atendimento de seu compromisso com a "valorização da vida" focando o desenvolvimento de valores, posturas e atitudes, no sentido de garantir o direito de ir e vir dos cidadãos.

A Semana deve ter uma abrangência nacional e mostrar a mudança de postura de toda a sociedade no esforço para a redução de acidentes.

O tema não deverá ter a proposta de abordagem simplista que fale da faixa de pedestres, semáforos, etc. É algo bem mais audacioso e que pretende ampliar o conceito de segurança dos mais vulneráveis. A escolha do tema, por sugestão da Câmara Temática de Educação para o Trânsito e Cidadania do CONTRAN, faz alusão a necessidade de um amplo debate sobre a legislação que contemplam questões essenciais para a mobilidade urbana sustentável, segura e acessível, priorizando a circulação dos pedestres em face da estrutura viária historicamente voltada à circulação de veículos automotores.

A escolha do tema faz alusão, em princípio, ao artigo 29, XII, §2º do Código de Trânsito Brasileiro, segundo o qual: “Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres”, e se expande para além do trânsito em stricto sensu, uma vez que visa alertar as autoridades para a necessidade de repensar o espaço urbano, tendo como preocupação a mobilidade do pedestre, uma vez que o meio ambiente influencia diretamente para evitar ou proporcionar acidentes de trânsito envolvendo esses usuários da via.

Fonte:

A Cidade e os Pedestres

Irene Rios

Penso que uma cidade é construída sobre relações humanas, gente se encontrando, e, entre outras coisas, o amor incrementaria as próprias coisas que são desejáveis numa cidade.
James Hillman

As palavras de Hillman (1993, p. 42) indicam a importância das relações humanas e de amor para o desenvolvimento da cidade. Essa relação de amor pelo próximo e pela cidade envolve todos que partilham o mesmo espaço nas vias, ou seja, motoristas, pedestres e ciclistas. Exige, segundo Duarte Jr., um compromisso social.

Dessa relação, portanto, emerge em nós um sentimento de instalação no mundo e de compromisso social, não só com o próximo, a partilhar o mesmo espaço, mas também com o nosso ambiente e as coisas que o preenchem. Passear pela paisagem urbana se mostra, pois, fundamental para a constituição de uma realidade estável, sensível e acolhedora, uma realidade com a qual nos identificamos e pela qual nos sentimos um pouco responsáveis. (DUARTE JR., 2001, p. 85).

            O autor argumenta que somos responsáveis pela realidade do nosso ambiente e que passear pela cidade é fundamental para tornar essa realidade estável, sensível e acolhedora. Esse “passear” refere-se ao ato de caminhar, de transitar pela cidade a pé, a maneira mais antiga e natural que existe para a realização de um deslocamento. No dia-a-dia das grandes cidades, com o aumento de calçadões e da distância dos estacionamentos, mesmo que estejamos nos locomovendo por meio de veículo motorizado, na maioria das viagens, precisamos também caminhar. Contudo, esse caminhar, muitas vezes, é individualista e sem compromisso com o próximo e com a cidade. Duarte Jr. (2001, p. 84) destaca que, para os habitantes de nossas cheias metrópoles, “[...] o andar significa tão-só uma ação mecânica que os conduz de um ponto a outro, a transposição de uma distância que não pode ser vencida com o concurso de máquinas ou equipamentos”.
            A falta de compromisso social induz as pessoas a não se enxergarem como solução para os problemas no trânsito. Podemos conferir este ponto de vista dos cidadãos na pesquisa realizada pelo Ministério das Cidades.

Pesquisas do Ministério das Cidades indicam que a atitude normal das pessoas é culpar os demais pelos problemas no trânsito. De acordo com as 2.000 entrevistas, 3 em cada  4 brasileiros se enxergam como solução, em vez de problema no trânsito. E consideram não ser necessário mudar suas atitudes.
Observa-se que a maioria dos problemas é atribuída às práticas dos “outros” e quase nunca à própria conduta ao volante, nas ruas e calçadas. Apenas quando indagados de forma objetiva sobre certas atitudes (como o uso do cinto no banco traseiro, o respeito aos limites de velocidade, a preocupação em beber e dirigir, o uso da faixa de pedestre, etc.) é que alguns reconhecem falhas e passam a se ver mais como problema do que como solução.
Apenas os motoristas de carro veem em seus iguais o “principal adversário”. Ciclistas e motociclistas acham que a culpa costuma ser dos motoristas de carro. Já os motoristas profissionais culpam os ciclistas. (BRASIL, 2011).

Com o objetivo de conscientizar a população brasileira sobre a necessidade de mudança de atitude das pessoas no trânsito, para torná-lo um espaço de convivência mais pacífico e seguro, o Ministério das Cidades, em parceria com o Denatran, promoveu, em julho de 2011, a Campanha Pedestre. “Pare, pense, mude”. O planejamento dessa campanha iniciou com uma pesquisa sobre a percepção das pessoas em relação aos problemas no trânsito (o resultado está na citação anterior). Essa é a metodologia recomendada na resolução 314 do Contran (BRASIL, 2009).
O lema da campanha é: “O trânsito só muda quando a gente muda”. A veiculação da campanha foi por meio de comerciais veiculados nas TVs, nos rádios, nos anúncios em revistas e na Internet e nas redes sociais. Ela foi divulgada, também, em espaços exteriores de grande circulação de pessoas e veículos, por meio de mensagens educativas nos postos de gasolina, pedágios, paradas de ônibus, para-brisas de taxis e ônibus e outdoors em avenidas e estradas para orientar os motoristas que saíram de férias.
            Faz parte dessa campanha, o vídeo, com duração de 15 segundos, contendo a representação de uma entrevista realizada com uma senhora idosa.

Vídeo - Pedestre. "Pare, pense, mude"

video


O repórter pergunta à senhora que está atravessando a rua: “O que você faria para melhorar o trânsito?”. Ela responde: “Ah! Tá tudo errado, os motoristas não enxergam mais a gente”. Então, o repórter questiona: “O que mudaria em você para melhorar o trânsito?”. A senhora responde, olhando a sua volta: “Ai, que vergonha! Eu tô fora da faixa! Você não vai passar isso não, né?”. Na sequência, aparece a legenda e o áudio com os seguintes dizeres: “O Trânsito só muda quando a gente muda”. O filme encerra com a imagem e o áudio do lema da campanha: “Pare! Pense! Mude!”. Esse vídeo, por provocar graça, devido à reação da entrevistada ao perceber que estava fora da faixa, possui o estilo cômico.
Essa campanha proporciona a reflexão sobre dois importantes aspectos: o primeiro refere-se às dificuldades enfrentadas pelos idosos ao caminhar pelas vias, principalmente ao atravessar as ruas. Segundo Wold:

Atravessar a rua é um problema significativo para pedestres idosos. Um estudo revelou que apenas 1% dos idosos independentes acima dos 72 anos é capaz de atravessar a rua no tempo determinado pelo sinal de pedestres. Ainda que a incidência de acidentes nesse caso seja baixa, o risco de ferimentos graves é alto. (WOLD, 2013, p. 379).

            A dificuldade de locomoção das pessoas idosas, aliada à pressa e à falta de respeito dos motoristas, faz com que os idosos sintam-se muito inseguros quando vão atravessar a rua.
            O segundo aspecto percebido no vídeo é a atitude da idosa, que reclamava da falta de respeito no trânsito, mas também não estava respeitando a sinalização. Esse aspecto foi percebido por diversos estudantes da Educação de Jovens e Adultos – EJA – do Ensino Médio, sujeitos de uma pesquisa que realizei sobre a percepção sensível relacionada às campanhas educativas para o trânsito. Os sujeitos observaram que:

“A senhora queria os direitos dela no trânsito, mas nem ela respeita as leis.” (Sujeito 8).

“Uma senhora reclamando do trânsito, mas esquecendo que a mudança tem que começar por nós mesmos, pois ela estava cometendo uma infração.” (Sujeito 16).

“As pessoas cobram dos outros, mas não se cobram a si mesmo...” (Sujeito 19).

A atitude da idosa pode ser comparada a atitude da esposa, personagem da parábola Os Lençóis da Vizinha.

Um casal, recém-casado, mudou-se para um bairro muito tranquilo. Na primeira manhã que passavam na casa, enquanto tomavam café, a mulher reparou através da janela em uma vizinha que pendurava lençóis no varal e comentou com o marido:
- Que lençóis sujos ela está pendurando no varal! Está precisando de um sabão novo! Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!
O marido a tudo escutava, calado.
Alguns dias depois, novamente, durante o café da manhã, a vizinha pendurava lençóis no varal e a mulher comentou com o marido:
- Nossa vizinha continua pendurando os lençóis sujos! Se eu tivesse intimidade, perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!
E assim, a cada dois ou três dias, a mulher repetia seu discurso, enquanto a vizinha pendurava suas roupas no varal.
Passado um mês, a mulher se surpreendeu ao ver os lençóis muito brancos sendo estendidos e, toda empolgada, foi dizer ao marido:
- Veja, ela aprendeu a lavar as roupas! Será que a outra vizinha a ensinou? Porque eu não fiz nada!
O marido calmamente respondeu:
- Não, hoje eu levantei mais cedo e lavei os vidros da nossa janela! (Autor desconhecido)

A esposa critica a vizinha sem perceber que era ela que estava errada. No caso da idosa, ela critica os motoristas sem se dar conta que também está agindo incorretamente, atravessando a rua fora da faixa de pedestres.
            O comportamento da senhora idosa sensibilizou os sujeitos da pesquisa, entre as manifestações de sentimentos. Vale destacar o comentário do Sujeito 3: “Senti um pouco de culpa, pois a gente sabe que é errado e atravessa a rua fora da faixa de pedestres.” Muitas pessoas são imprudentes conscientemente, ou seja, sabem que estão erradas, mas fazem. Por que agem assim? Por que se comportam como homens bárbaros?
Conforme Schiller (1995, p. 33), o homem pode ser selvagem, “quando seus sentimentos imperam sobre seus princípios”, ou bárbaro, “quando seus princípios destroem seus sentimentos”. O autor argumenta, no entanto, que há também o homem cultivado, aquele que “faz da natureza uma amiga e honra sua liberdade, na medida em que apenas põe rédeas a seu arbítrio” (SCHILLER, 1995, p. 33).
Podemos deduzir, pelo pensamento de Schiller, que, no trânsito, convivemos com o cidadão selvagem, aquele que não conhece as leis e a maneira correta e segura de transitar e deixa-se levar pelo impulso e pelos sentimentos; com o cidadão bárbaro, aquele que tem conhecimento sobre as leis e às regras de segurança no trânsito, mas age com base em seus princípios, com imprudência e sem obedecer às leis; e com o cidadãocultivado, aquele que é sensível, controla sua liberdade e, consequentemente, é educado e prudente no trânsito.
            Assim sendo, talvez as pessoas que agem como homens bárbaros no trânsito o fazem porque estão dando mais atenção aos seus princípios, do que aos seus sentimentos. São pessoas que não controlam seu livre-arbítrio e cometem todo tipo de infração. É possível que tais atitudes estejam relacionadas aos valores profundamente enraizados. Sobre esse assunto, Pinto explica que:

Os esforços para mudar os valores profundamente enraizados estão entre as causas mais difíceis de serem levadas a efeito. O sentido de identidade e bem-estar de um indivíduo está enraizado em seus valores básicos. Seus valores básicos orientam suas percepções e escolhas sociais, morais e intelectuais. A intromissão da dissonância em seu conjunto de valores criará um intenso constrangimento e stress. Ele procurará evitar as informações dissonantes, ou irá desprezá-las pela racionalização, ou as colocará de lado para que não afetem seus próprios valores. O sistema psicológico humano resiste à informação que o desoriente. (PINTO, 2002, p. 22).
           
Pelo visto, a tarefa da educação para o trânsito, de alterar os valores profundamente enraizados, a fim de provocar a mudança de atitudes nas vias, é um grande desafio.
            Em relação à campanha: Pedestre. "Pare, pense, mude", consideramos importante destacar a interrogação do sujeito 19: “Como educar os novos se os mais experientes, "idosos", não dão exemplo?” (Sujeito 19). Entende-se que os mais velhos, por possuir mais experiência, devem servir de exemplo aos mais novos. Quando isso não acontece, como demonstrou a senhora idosa, personagem da campanha, parece que estamos enfrentado um problema sem solução, ou seja, temos a impressão de que os mais jovens estão condenados a serem também imprudentes no trânsito.
Por outro lado, é importante ressaltar que alguns sujeitos da pesquisa indicaram soluções para a falta de harmonia no trânsito. Destacamos, assim, as seguintes falas:

“Que não adianta reclamar sobre mudanças se não mudar seus próprios hábitos.”(Sujeito 14).

“Que bom seria se motoristas e pedestres tivessem educação, respeito, consciência e vontade para mudarmos o trânsito e diminuirmos os números de acidentes.” (Sujeito 16).

Podemos perceber que eles realçaram a importância da mudança de atitudes individuais para transformar o trânsito e que essa mudança deve partir dos motoristas e dos pedestres. Tal mudança refere-se a um compromisso motivado pelo amor à vida e ao próximo. São atitudes pessoais que envolvem a alteração de valores profundamente enraizados. São condutas com propósito coletivo, em prol do bem comum, em prol das relações humanas na cidade e em prol da cidade. É a construção da cidade a partir das relações humanas, idealizada por Hillman (1993), ou seja, uma cidade composta por pessoas que se encontram e que com amor fazem-na desenvolver.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Departamento Nacional de Trânsito. 2011. Disponível em:http://www.denatran.gov.br/ultimas/20110630_decada.htm. Acesso em: 25 jan. 2013.

______. Departamento Nacional de Trânsito / Ministério das Cidades. Parada: Pacto Nacional pela Redução de Acidentes / campanhas. Pedestre. "Pare, pense, mude"
2012b. Disponível em: http://www.paradapelavida.com.br/campanhas/pare-pense-mude-junho-de-2011/. Acesso em: 27 fev. 2013.

______.  Departamento Nacional de Trânsito / Ministério das Cidades. Resolução 314. 2009. Disponível em:http://www.denatran.gov.br/download/Resolucoes/RESOLUCAO_CONTRAN_314_09.pdf. Acesso em: 31 mar. 2013.

DUARTE JR., João Francisco. O sentido dos sentidos. Curitiba: Criar, 2001.

HILLMAN, James. Cidade & alma. São Paulo: Studio Nobel, 1993.

PINTO, Paulo Fernando de Ascenção. Avaliação da compatibilidade entre a mídia televisiva e as campanhas educativas para o trânsito. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, 2002.

SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem. 3. ed. Trad. Roberto Schwarz e Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 1995.

WOLD, Glória. Enfermagem gerontológica. Tradução: Ana Helena Pereira Correa. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.

Irene Rios
Mestra em Educação, com a pesquisa: CAMPANHAS EDUCATIVAS PARA O TRÂNSITO: a percepção sensível de jovens e adultos; Especialista em Ambiente, Gestão e Segurança de Trânsito e em Metodologia de Ensino; Graduada em Letras Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa; Consultora e co-autora do projeto “Gincana Cultural de Trânsito”, vencedor do XII Prêmio Denatran de Educação no Trânsito - 2012 - na categoria "Educação no Trânsito - Projetos e Programas"; Presidente da Câmara Catarinense do Livro; Professora universitária de disciplinas na área de Educação para o Trânsito; Autora de artigos e livros sobre Educação para o Trânsito.